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Desfile de arrogância, avareza e soberba

  • Foto do escritor: Michel Hajime
    Michel Hajime
  • 27 de fev.
  • 4 min de leitura

Muitos fingem não saber


O que deveria ser um espaço de silêncio, introspecção e humildade tem, em muitos contextos, se transformado em um palco de exibição. A igreja — tradicionalmente associada à oração, à reflexão e à prática das virtudes cristãs — tem assistido a um fenômeno preocupante: o desfile de egos, roupas de grife e conquistas materiais. Em vez de recolhimento espiritual, observa-se competição estética. Em vez de humildade, ostentação.


O contraste é gritante quando lembramos das palavras atribuídas a Jesus Cristo nos evangelhos, que exaltam os humildes e criticam a hipocrisia religiosa. Em Bíblia, especialmente no Sermão da Montanha, a ênfase recai sobre a pureza de intenção, o desapego e a vida interior. No entanto, em muitos templos contemporâneos, o que se vê é uma espécie de “evento social dominical”, onde a aparência parece importar mais do que a essência.


Não se trata aqui de condenar o cuidado pessoal ou a boa apresentação — afinal, vestir-se bem pode ser uma forma de respeito ao ambiente religioso. O problema surge quando o culto deixa de ser centrado na espiritualidade e passa a girar em torno da comparação: quem está melhor vestido, quem prosperou mais, quem ostenta o carro novo no estacionamento. A igreja, que deveria acolher igualmente ricos e pobres, torna-se espaço sutil de hierarquização social.


Essa transformação revela algo mais profundo: a influência da lógica do consumo sobre todas as esferas da vida, inclusive a religiosa. A cultura contemporânea estimula a autopromoção constante. Redes sociais, vitrines e discursos de sucesso invadem o imaginário coletivo. Assim, o templo, que deveria funcionar como contraponto ao mundo exterior, acaba reproduzindo suas mesmas dinâmicas: competição, status e validação social.


Há também uma dimensão psicológica nesse comportamento. A necessidade de reconhecimento e pertencimento pode levar indivíduos a buscar aprovação até mesmo em ambientes espirituais. A igreja passa a ser um local estratégico para afirmar identidade e poder simbólico. Em vez de perguntar “como posso servir?”, muitos parecem perguntar “como estou sendo visto?”.


O impacto disso não é apenas moral, mas comunitário. Pessoas em situação de vulnerabilidade podem sentir-se deslocadas, inadequadas ou julgadas. A mensagem implícita de que sucesso material equivale a bênção espiritual distorce princípios fundamentais da fé cristã. O risco é substituir a vivência da fé por um teatro social cuidadosamente encenado.


É preciso resgatar o sentido original do espaço sagrado: lugar de encontro com Deus e com o próximo, sem máscaras ou competições. A humildade não é um adereço opcional da fé cristã — é um de seus pilares. Quando a igreja se torna passarela, algo essencial se perde.


Talvez a crítica mais necessária não seja às roupas caras ou aos gestos de ostentação, mas à inversão de valores que permite que isso se torne central. A pergunta que fica é incômoda, mas urgente: estamos indo à igreja para nos transformar interiormente ou para sermos admirados exteriormente? Enquanto essa reflexão não for feita com honestidade, o altar continuará correndo o risco de ser confundido com vitrine.


Autor: Michel Hajime

Fui abusado sexualmente aos 16 anos dentro de uma emissora de televisão por um segurança saindo da gravação de uma novela quando era figurante, na semana do meu aniversário de 17 anos um produtor me ofereceu trabalho em troca de sexo e se masturbou na minha dentro do camim, durante a produção de uma novela famosa.


Passei por uma possível tentativa de “cura gay”, sofri ameaças de morte e agressões, presenciei casos de racismo, gordofobia, entre outras violências. Tentei suicídio mais de uma vez. Fui parar no CAPS após ser diagnosticado com crise de pânico. Todos os meus casos foram negligenciados, mesmo após cobranças ao poder público.


Nunca imaginei que essa patologia fosse tão cruel. Cheguei a ter feridas que ficaram na carne viva. Antes, se outra pessoa tivesse, eu falaria que era “mimimi”, até viver na própria pele. Embora todas as crueldades que sofri, não desejo isso nem para o meu pior inimigo.


Hoje, luto contra tudo pelo que passei. Mesmo tendo sido coagido, perseguido e até estar sendo ameaçado de morte, nunca deixarei de lutar, principalmente pelas crianças inocentes (seu eu que fui abusado na nadolecência me doí muito, imagina uma criança). Podem até me matar, mas morro como homem — muito mais homem do que aqueles que fazem discursos moralistas, mas defendem o indefensável.


Hoje, a maior dor como gay é ver a homossexualidade ligada ao abuso infantil, quando a maior parte dos casos de abuso é heterossexual (principamente entre familiares). Soma-se a isso a dor de ser agredido por homens casados que se relacionam com outros homens, mas, para disfarçar, agem de forma homofóbica e usam a religião para se esconder.


Creio em Deus e sei da importância da religião. Porém, hoje, muitas pessoas que nunca foram de Deus usam a religiosidade como disfarce para seus crimes e perversões. Ainda assim, sei que do nosso Pai nada se esconde. Neste mundo tomado por pessoas imundas, nada passa despercebido aos olhos do Nosso Pai Celestial. E, mesmo sofrendo tudo isso, Ele saberá que, embora eu tenha me tornado uma vítima da sociedade — discurso que até descobrir que estava em crise de pânico eu abominava —, eu não me rendi e sigo lutando pelo que Deus realmente prega: Amor, Caridade e Respeito.


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