Hétero versátil: a desculpinha bolsonarista adotada pelos gays
- Michel Hajime

- 27 de fev.
- 4 min de leitura

O que está em jogo não é semântica. É identidade, responsabilidade e poder simbólico
Nos últimos tempos, um termo passou a circular com força em aplicativos de relacionamento, redes sociais e até em discursos supostamente “modernos”: hétero versátil. À primeira vista, pode parecer apenas mais uma categoria identitária. Na prática, porém, o conceito surge como uma tentativa deliberada de substituir — e esvaziar — a bissexualidade, funcionando como uma nova roupagem para velhas formas de negação, homofobia velada e conveniência política.
A negação travestida de rótulo
A bissexualidade sempre enfrentou resistência, inclusive dentro da própria comunidade LGBTQIA+. Pessoas bissexuais são constantemente acusadas de “indecisão”, “confusão” ou oportunismo. O rótulo hétero versátil aparece justamente nesse terreno fértil da negação: homens que mantêm relações sexuais com mulheres e com homens, mas se recusam a se reconhecer como bissexuais.
Na maioria dos casos, trata-se de homens profundamente enrustidos, muitos deles casados, que vivem relações homoafetivas ou sexuais no sigilo absoluto. O novo termo funciona como um álibi moral: permite usufruir do desejo por outros homens sem abrir mão do status heterossexual — socialmente mais aceito, politicamente confortável e culturalmente protegido.
Política, masculinidade e conveniência
Não é coincidência que esse discurso dialogue fortemente com setores conservadores, especialmente os alinhados ao bolsonarismo cultural. Trata-se de uma visão de mundo que rejeita a pluralidade sexual, demoniza identidades dissidentes e exalta uma masculinidade rígida, agressiva e excludente.
Nesse contexto, o hétero versátil surge como uma gambiarra ideológica: o sujeito pode desejar outros homens, desde que isso não ameace sua imagem pública, seu casamento, sua posição política ou seu discurso moralista. É a sexualidade vivida no escuro, mas negada à luz do dia.
Homofobia que mata — inclusive de dentro
Há um dado incômodo, mas recorrente em análises sociais: a homofobia mais violenta muitas vezes nasce do conflito interno. O sujeito que reprime desejos, que odeia em si aquilo que não consegue aceitar, tende a projetar essa violência no outro. É a homofobia internalizada, silenciosa, socialmente aceita — e extremamente perigosa.
Quando esse comportamento é normalizado, ele legitima o preconceito. Pior: quando a própria comunidade LGBTQIA+ passa a aceitar esse discurso, contribui involuntariamente para o financiamento simbólico da exclusão e da violência.
Pornografia, dinheiro e hipocrisia
O debate se agrava quando entra em cena a indústria pornográfica. Há atores que gravam cenas gays, com penetração, contato íntimo e envolvimento sexual real, mas insistem em se declarar heterossexuais — muitas vezes usando o argumento de que “é só trabalho”.
É preciso ser claro: sexo é sexo, independentemente de estar sendo gravado. A atuação está ligada à encenação. No momento em que há prática sexual real, deixa de ser apenas arte e passa a ser vivência sexual. Negar isso não é neutralidade; é conveniência.
Mais grave ainda é quando esses mesmos atores lucram com o chamado pink money e, fora das câmeras, reproduzem discursos homofóbicos, esnobam gays em redes sociais ou reforçam estigmas contra a própria comunidade que os consome e sustenta financeiramente.
Não é liberdade, é negação
A pluralidade sexual não precisa de novos rótulos para esconder velhos preconceitos. Precisa de honestidade, enfrentamento e responsabilidade social. O termo hétero versátil não amplia direitos, não promove inclusão e não liberta ninguém. Ao contrário: reforça a ideia de que ser bissexual, gay ou assumir o desejo por outros homens ainda é algo vergonhoso — algo que precisa ser disfarçado.
Chamar isso de liberdade é um erro. Trata-se, na verdade, de mais uma forma de homofobia aceitável, elegante e perigosa — inclusive quando parte de dentro da própria comunidade LGBTQIA+.
Negar a própria sexualidade nunca foi ato político neutro. É sempre uma escolha. E, quase sempre, uma escolha que cobra um preço coletivo.

Autor: Michel Hajime
Fui abusado sexualmente aos 16 anos dentro de uma emissora de televisão por um segurança saindo da gravação de uma novela quando era figurante, na semana do meu aniversário de 17 anos um produtor me ofereceu trabalho em troca de sexo e se masturbou na minha dentro do camim, durante a produção de uma novela famosa.
Passei por uma possível tentativa de “cura gay”, sofri ameaças de morte e agressões, presenciei casos de racismo, gordofobia, entre outras violências. Tentei suicídio mais de uma vez. Fui parar no CAPS após ser diagnosticado com crise de pânico. Todos os meus casos foram negligenciados, mesmo após cobranças ao poder público.
Nunca imaginei que essa patologia fosse tão cruel. Cheguei a ter feridas que ficaram na carne viva. Antes, se outra pessoa tivesse, eu falaria que era “mimimi”, até viver na própria pele. Embora todas as crueldades que sofri, não desejo isso nem para o meu pior inimigo.
Hoje, luto contra tudo pelo que passei. Mesmo tendo sido coagido, perseguido e até estar sendo ameaçado de morte, nunca deixarei de lutar, principalmente pelas crianças inocentes (seu eu que fui abusado na nadolecência me doí muito, imagina uma criança). Podem até me matar, mas morro como homem — muito mais homem do que aqueles que fazem discursos moralistas, mas defendem o indefensável.
Hoje, a maior dor como gay é ver a homossexualidade ligada ao abuso infantil, quando a maior parte dos casos de abuso é heterossexual (principamente entre familiares). Soma-se a isso a dor de ser agredido por homens casados que se relacionam com outros homens, mas, para disfarçar, agem de forma homofóbica e usam a religião para se esconder.
Creio em Deus e sei da importância da religião. Porém, hoje, muitas pessoas que nunca foram de Deus usam a religiosidade como disfarce para seus crimes e perversões. Ainda assim, sei que do nosso Pai nada se esconde. Neste mundo tomado por pessoas imundas, nada passa despercebido aos olhos do Nosso Pai Celestial. E, mesmo sofrendo tudo isso, Ele saberá que, embora eu tenha me tornado uma vítima da sociedade — discurso que até descobrir que estava em crise de pânico eu abominava —, eu não me rendi e sigo lutando pelo que Deus realmente prega: Amor, Caridade e Respeito.


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