Deus nunca esteve ligado ao dinheiro, política e poder
- Michel Hajime

- 12 de mar.
- 5 min de leitura

Uma reflexão crítica sobre o Evangelho, a prosperidade e o perigo da idolatria institucional
Em um mundo cada vez mais orientado por riqueza, fama, política e poder, é urgente revisitar o cerne da mensagem de Jesus Cristo e confrontar a forma como a cultura contemporânea, inclusive a religiosa, frequentemente distorce o Evangelho. A narrativa bíblica original é radical na sua simplicidade: um homem pobre, sem status político, sem bens materiais, sem ambições terrenas — e, no entanto, com uma proposta revolucionária de vida e sentido.
Jesus não veio para falar de prosperidade financeira, status social ou poder político. Muito pelo contrário: segundo os Evangelhos, Ele pediu a seus discípulos que deixassem tudo para segui-lo:
“E Jesus, olhando para eles, disse: ‘Segui-me, e deixai que os mortos enterrem os seus mortos.’”— Mateus 8:22 (paráfrase livre dos Evangelhos sinóticos)
Esse convite — “deixai tudo e venham comigo profetizar” — não tinha nenhuma menção à busca por bens materiais, conquistas pessoais ou reconhecimento humano. Não havia no coração de Cristo qualquer proposta de prosperidade segundo os padrões deste mundo.
O dinheiro, a fama e o poder sempre estiveram ligados ao mal?
A crítica não é meramente religiosa: é histórica, psicológica e social. Em praticamente todas as tradições e narrativas humanas, a busca desenfreada por dinheiro e poder está associada a vícios e corrupções que corrompem o espírito:
Ganância
A cobiça pelo lucro fácil, pela acumulação sem limite, tem sido causa de injustiças, exploração e desumanização de milhões ao longo da história.
Soberba
O poder corrompe — uma afirmação tão comum que já virou máxima. A sede de influenciar, dominar e ser adorado prejudica a empatia e distorce valores.
Luxúria e materialismo
A idolatria ao prazer imediato e ao conforto material cria sociedades que perdem de vista o que é essencial: amor, solidariedade, verdade.
Fama e ego
No mundo atual, fama tornou-se sinônimo de valor humano. Mas Jesus ensinou que o último será o primeiro, e que a grandeza se mede em serviço, não em seguidores ou likes.
Quando a cultura secular encontra a espiritualidade
A trilogia Deixados para Trás (Left Behind) — originalmente uma série de livros e posteriormente adaptada para filmes — oferece uma visão popular e controversa do “fim dos tempos”. Nela, o Anticristo emerge como um líder carismático que chega ao poder mundial, inclusive assumindo o controle de instituições globais como as Nações Unidas.
No remake mais recente, Deixados Para Trás: O Início do Fim (Left Behind: Rise of the Antichrist, 2023), o personagem que representa o Anticristo é retratado como alguém que sobe ao comando da ONU e se apresenta como um salvador político em meio ao caos.
Essa narrativa cinematográfica — embora de ficção — respira a fantasia do poder absoluto: um homem comum, dotado de carisma, habilidade política e controle global, que promete paz e progresso, mas é no fundo a encarnação do engano.
O filme e os livros refletem uma percepção cultural que muitos têm: de que o poder político, especialmente quando centralizado em instituições supranacionais, pode ser terreno fértil para a corrupção e a idolatria. Mesmo que seja uma obra de ficção religiosa popular, isso nos convida a perguntar: por que histórias assim atraem tantas pessoas? Talvez porque refletem o medo (e a frustração) de que a busca pelo poder e pela ordem institucional acaba se tornando um novo tipo de religião — afastando-se do propósito original do cristianismo.
Jesus versus o culto ao sucesso mundano
O contraste não poderia ser mais nítido:
Cristo abandonou o conforto, não acumulou riqueza, e ensinou que o verdadeiro poder está em servir.A cultura do mundo eleva dinheiro, fama e cargos a ídolos que escravizam o espírito.
Jesus nunca disse: “Busquem prosperidade e vocês serão felizes.”Ele disse: “Amem a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmos.”
Enquanto líderes políticos, estrelas e magnatas são lembrados por seus palácios, carros e luxos, Jesus é lembrado por sua cruz — símbolo máximo de serviço, altruísmo e renúncia.
A verdadeira prosperidade não se mede em cifras
Prosperidade genuína nunca foi bem-estar financeiro, fama estrondosa ou supremacia política. Ela está na transformação do coração, na renúncia ao egoísmo, e na busca pelo bem comum.
O chamado de Jesus para “deixar tudo e segui-lo” foi uma chamada para liberdade, não para acúmulo; para missão, não para dominação. O perigo real não está em líderes carismáticos no poder — está na tendência humana de transformar qualquer poder terreno em um novo ídolo.
Se o cinema contemporâneo — inclusive obras como Deixados para Trás — nos mostra um Anticristo político e institucional, isso diz mais sobre nossos medos culturais do que sobre a essência do Evangelho. E essa é uma reflexão que transcende a fé: é uma convocação para olhar criticamente a forma como nossa sociedade honra o que não deveria ser adorado.

Autor: Michel Hajime
Fui abusado sexualmente aos 16 anos dentro de uma emissora de televisão por um segurança saindo da gravação de uma novela quando era figurante, na semana do meu aniversário de 17 anos um produtor me ofereceu trabalho em troca de sexo e se masturbou na minha dentro do camim, durante a produção de uma novela famosa.
Passei por uma possível tentativa de “cura gay”, sofri ameaças de morte e agressões, presenciei casos de racismo, gordofobia, entre outras violências. Tentei suicídio mais de uma vez. Fui parar no CAPS após ser diagnosticado com crise de pânico. Todos os meus casos foram negligenciados, mesmo após cobranças ao poder público.
Nunca imaginei que essa patologia fosse tão cruel. Cheguei a ter feridas que ficaram na carne viva. Antes, se outra pessoa tivesse, eu falaria que era “mimimi”, até viver na própria pele. Embora todas as crueldades que sofri, não desejo isso nem para o meu pior inimigo.
Hoje, luto contra tudo pelo que passei. Mesmo tendo sido coagido, perseguido e até estar sendo ameaçado de morte, nunca deixarei de lutar, principalmente pelas crianças inocentes (seu eu que fui abusado na nadolecência me doí muito, imagina uma criança). Podem até me matar, mas morro como homem — muito mais homem do que aqueles que fazem discursos moralistas, mas defendem o indefensável.
Hoje, a maior dor como gay é ver a homossexualidade ligada ao abuso infantil, quando a maior parte dos casos de abuso é heterossexual (principamente entre familiares). Soma-se a isso a dor de ser agredido por homens casados que se relacionam com outros homens, mas, para disfarçar, agem de forma homofóbica e usam a religião para se esconder.
Creio em Deus e sei da importância da religião. Porém, hoje, muitas pessoas que nunca foram de Deus usam a religiosidade como disfarce para seus crimes e perversões. Ainda assim, sei que do nosso Pai nada se esconde. Neste mundo tomado por pessoas imundas, nada passa despercebido aos olhos do Nosso Pai Celestial. E, mesmo sofrendo tudo isso, Ele saberá que, embora eu tenha me tornado uma vítima da sociedade — discurso que até descobrir que estava em crise de pânico eu abominava —, eu não me rendi e sigo lutando pelo que Deus realmente prega: Amor, Caridade e Respeito.


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