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ABNT para quê? A padronização ignorada por congressos científicos no Brasil

  • Foto do escritor: Michel Hajime
    Michel Hajime
  • 23 de fev.
  • 3 min de leitura

A Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) define padrões formais para estruturação de trabalhos acadêmicos, como formatação, citações e referências. A norma mais conhecida, NBR 6023, estabelece diretrizes claras para elaboração de referências bibliográficas. Contudo, a prática em congressos e eventos científicos brasileiros mostra que a padronização muitas vezes não é seguida — e, em muitos casos, é substituída por regras internas contraditórias, não reconhecidas formalmente.


Contradições frequentes: eventos que despadronizam


Embora a ABNT seja uma norma técnica nacional, cada evento — mesmo dentro de uma mesma área do conhecimento — costuma adotar regras próprias para submissão de trabalhos. Alguns utilizam variações da ABNT, outros exigem formatos estrangeiros como APA, MLA, Chicago ou Vancouver. O resultado disso é um cenário marcado por:

  • insegurança metodológica (autores ficam sem saber qual padrão seguir);

  • retrabalho excessivo (refazer a formatação para cada submissão);

  • desvalorização da normatização científica nacional.

Este fenômeno tem sido documentado em trabalhos de biblioteconomia e ciência da informação, que apontam a existência de descompasso entre normativas nacionais e exigências institucionais locais.


O que dizem os estudos e documentos oficiais?


1. Falta de adesão mesmo em ambientes acadêmicos


A maioria dos eventos universitários não segue integralmente as normas da ABNT — nem mesmo aqueles realizados em instituições públicas. Muitos promovem manuais próprios, o que, segundo os autores, causa prejuízo à uniformização da produção científica nacional.


Eventos que ignoram ABNT por opção


Muitos comitês organizadores optam deliberadamente por não utilizar a ABNT, por considerarem o padrão “burocrático” ou “difícil de operacionalizar” em plataformas digitais. Essa percepção leva à preferência por normas internacionais, especialmente em congressos das áreas biomédicas e das ciências sociais aplicadas.


Análise crítica: padronização ou fragmentação?


A ABNT foi criada justamente para oferecer unidade metodológica e técnica, essencial à interoperabilidade científica — ou seja, facilitar a circulação e a validação do conhecimento em qualquer instância formal de pesquisa. Contudo, a ausência de uma política de adoção obrigatória e a autonomia excessiva dos comitês organizadores resultam em:


  • fragmentação normativa;

  • erros de formatação que afetam a indexação de trabalhos;

  • e até barreiras à internacionalização, já que trabalhos redigidos de formas híbridas muitas vezes não são aceitos em periódicos ou anais internacionais.

A padronização — que deveria ser instrumento de qualidade técnica — é tratada como mero detalhe estético, quando, na verdade, é parte da base epistemológica da ciência.


Caminhos possíveis


  1. Adoção nacional mandatória em editais públicosEventos financiados com recursos públicos poderiam ser obrigados a adotar um padrão único por área do conhecimento (por exemplo, via CAPES ou CNPq).

  2. Divulgação ampliada da ABNT em universidadesMuitos estudantes e organizadores de eventos não têm domínio técnico das normas. Cursos de formação e materiais acessíveis seriam formas de ampliar o uso consciente.

  3. Tecnologia a favor da normatizaçãoFerramentas como o Mendeley, Zotero e o MORE podem automatizar as referências segundo ABNT, mas ainda são subutilizadas. A promoção de seu uso pode diminuir o retrabalho.


A ABNT foi criada para normatizar, mas hoje é muitas vezes ignorada — não por falha técnica, mas por uma cultura institucional que prefere a reinvenção ao rigor. A falta de consenso não apenas desperdiça o tempo de pesquisadores, como compromete a integridade da produção científica nacional. Uma ciência sólida começa pelo cuidado com sua forma — e a forma também é conteúdo.



 
 
 

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