top of page

A Volta da Inquisição No Brasil

  • Foto do escritor: Michel Hajime
    Michel Hajime
  • 24 de fev.
  • 2 min de leitura


Um Alerta Sobre Retrocessos e Riscos à Democracia


A simples ideia de uma nova Inquisição parece absurda em pleno século XXI. No entanto, não é raro que sociedades democráticas enfrentem ondas de radicalização moral, perseguições simbólicas e tentativas de impor normas religiosas como se fossem leis universais. Não se trata de prever literalmente o retorno de tribunais inquisitoriais — mas de reconhecer que certas práticas contemporâneas ecoam, em forma e intenção, mecanismos de controle que deveriam ter ficado enterrados na história.


O perigo não está em uma instituição específica ressurgir como era séculos atrás, mas na reaproximação entre poder religioso e poder coercitivo do Estado. Sempre que discursos de autoridade moral passam a reivindicar capacidade de julgar comportamentos, definir punições sociais ou pressionar pela criação de leis que restringem liberdades fundamentais, dá-se o primeiro passo para um terreno perigoso: o da punição baseada em crenças particulares, e não em princípios constitucionais.


A intolerância religiosa, por exemplo, é um sintoma evidente desse retrocesso. Quando grupos são hostilizados, demonizados ou tratados como ameaça por praticarem outra fé — ou por não terem fé alguma — cria-se um ambiente que legitima a perseguição. A história mostra que a Inquisição não surgiu de um dia para o outro; ela amadureceu em meio a discursos de “proteção moral”, “pureza”, “ordem” e “verdade única”. O que começa como hostilidade simbólica pode se transformar em tentativas de censura, exclusão e, nos piores cenários, violência.


Outro risco relevante está na pressão por legislações que confundem moral religiosa com norma jurídica. Uma democracia laica só permanece íntegra quando o Estado resiste à tentação de adotar dogmas como guia para suas decisões. Quando leis são criadas para privilegiar determinadas crenças ou para punir comportamentos apenas por não se alinharem a elas, abre-se um precedente que fragiliza direitos civis, deslegitima instituições e coloca minorias em situação de vulnerabilidade extrema.


A possibilidade de retrocessos desse tipo deve acender um alerta no sistema de Justiça. A função do Judiciário não é validar pressões doutrinárias, mas proteger liberdades individuais e garantir a pluralidade. Se essa proteção se enfraquece, o país se torna terreno fértil para mecanismos de coerção que lembram estruturas inquisitoriais: julgamento moral travestido de lei, punições sociais disfarçadas de ordem pública, vigilância de comportamentos sob o argumento de “defesa da fé”.


Não é preciso imaginar fogueiras ou tribunais medievais para entender o perigo. A “volta da Inquisição” é, na realidade, uma metáfora para qualquer movimento que tente substituir a razão jurídica por dogmas, a liberdade por obediência e a pluralidade por uniformidade.


O antídoto continua sendo o mesmo de sempre: um Estado laico forte, instituições independentes, liberdade de crença e vigilância pública contra qualquer tentativa de transformar convicções religiosas em instrumentos de perseguição.

A democracia só vive onde cabe mais de uma verdade — e onde ninguém é punido por escolher a sua.

 
 
 

Comentários


bottom of page